Hoje...


Hoje vais dizer que te cansaste de ver o tempo a correr,
Que não fazes da vida um jogo e, mesmo assim, continuas a perder.
Vais sentar-te na calçada suja que a chuva não se deu ao trabalho de lavar
E vais pedir ajuda a um céu que não foi criado para te consolar.

Hoje vais falar horas e horas sobre as coisas que odeias,
Aquelas que te dão pele de galinha e que te fazem o sangue fervilhar nas veias.
Vais começar com discursos feitos de palavras que não têm nada,
E vais pedir ajuda a quem dorme em silêncio no leito da madrugada.

Hoje vais chorar as lágrimas às quais sempre te quiseste opor
Porque mais ninguém tem de saber, só tu lhes sentes o sabor.
Vais tentar desamarrar a corda que te aperta a garganta num nó
E vais pedir ajuda a quem sempre escolheu deixar-te só.

Talvez te veja da minha janela ao abrir as cortinas à espera do vento
Mas não te posso oferecer nada pois coisa nenhuma pode dar-te alento.
Vou ver-te desistir com o olhar mergulhado em sofreguidão,
E vou resistir ao impulso de saltar da varanda para te estender a mão.

E não te vou ajudar porque a água que nasce nunca seca a fonte,
Só nos pesa nas pálpebras e não nos deixa ver para lá horizonte.
E ao som desse lamento silencioso que te faz pensar em mim
Fecho as cortinas do palco sem vénias e volto ao camarim.

Inconsciência livre

Escolhes atalhos, caminhos que não levam a lado nenhum. Perdes-te em sítios que não conheces com gente que não ficará contigo muito tempo. Pensas que a vida é difícil mas és tu quem constrói as barreiras, és tu que ergues os muros, és tu que escolhes tropeçar. Talvez não o faças de propósito. Tens tanta sede de liberdade que não te apercebes de que ela termina quando a dos outros começa. Destróis quem te quer bem e ficas perto de quem te quer destruir.

Não tenho mais conselhos para te dar. Estou cansada. Dói-me ver-te cair constantemente. Custa-me ver-te nessa vida que levas aos trambolhões, sem certezas do que é certo e com crenças firmes no que te faz mal. Já gastei as lágrimas que não sabia ter e a paciência que julgava infindável. Vejo-te sempre na mesma ruela, com o olhar apagado, com a alma a pedir descanso, com o corpo dormente. Mas levantas-te assim que alguém abre uma janela e entras sem pedir licença. Sais pouco depois com a cabeça a explodir. O coração não te dói; acho que o perdeste algures no escuro da noite.

És inconsciente. Ages sem pensar e esqueces-te de que as coisas têm consequências. Mas elas nunca recaem sobre ti. Ficam sempre com aqueles que se preocupam, com as pessoas que te vêem na ruela e te abrem uma porta. Escolhes sempre não entrar. Preferes o risco do desconhecido, as caras que um dia deixarão de ser familiares e os nomes que nunca mais irás recordar. E eu vejo-te ao longe. Sinto-me inútil.

Atrai-te a noção de amor, de romantismo. Apaixonas-te sempre por quem te estende a mão, por quem te olha carinhosamente quando no fundo, nem sequer espera ver-te amanhã. Evocas sentimentos sem sentir o sabor das sílabas, chamas pelos outros quando te vês num quarto sem janelas. Todos somos seres errantes mas tu não o admites. Deleitas-te com as vitórias de hoje e esqueces-te do sítio de onde vieste. Até já te esqueceste do sítio para onde querias ir. 

Não te deixei fugir. Aconteceu de um momento para o outro. Olhei para o lado e de repente já não estavas à minha beira. Tentei chamar-te mas as sílabas do teu nome arranhavam-me a garganta. Desisti. Não vale a pena lutar por uma pessoa que não quer lutar por si própria. Às vezes pergunto-me acerca do que pensarás quando te vês ao espelho. Sabes quem és? Ainda te lembras dos sonhos e objectivos que tinhas? Ou perdeste-os por aí?

Talvez um dia aprendas a dar valor à vida e às pessoas. Pode ser que um dia acordes e compreendas que nada se decide com um lançamento de dados. O que hoje te parece uma certeza, não passará de um erro crasso do qual te arrependerás um dia. E eu cansei-me de tentar explicar-te algo que está à frente dos teus olhos. No fim, cerras sempre as pálpebras e finges não ver.

Uma vida pretensiosa

Já fui pretensiosa. Julguei saber tudo e mais alguma coisa sobre a vida como se a tivesse experimentado em toda a sua plenitude. Talvez mereça isto, talvez tivesse de sofrer este malfadado destino com o qual não sei conviver. Olho para os lados em busca de uma mão estendida mas dou por mim sozinha, com o corpo colado ao chão, demasiado fraco para se levantar. Que fui eu fazer? O que é que me deu para deitar tudo a perder quando tinha o mundo à minha mercê, quando te tinha só para mim de alma e coração? 

Chamaram-me à razão. Mas também me prenderam à mentira. Deixei-me levar pelos conselhos errados, pelas palavras sem rumo. Só mais tarde percebi. Tarde demais. Tropecei no tapete e bati com o rosto no chão. Engoli o meu próprio sangue com a força de morder os lábios. Foi nesse momento que percebi tudo, como se tivesse descido sobre mim a razão. Ao sangue juntaram-se as lágrimas e nunca a vida me soube tão mal. 

A culpa foi minha. Fiz-me de surda quando devia ter cerrado os lábios. Disse-te palavras tão afiadas como lâminas. Rasguei-te a pele e perfurei-te o coração sem dó nem piedade. Não fui humana, desci aos confins da banalidade, vesti-me com o tecido sujo que usam as sombras. Rastejei ao lado delas, tomada pelo súbito poder que me concedeste. E eu cansei-me de ti, das tuas palavras, do teu rosto, da tua presença. Mas calei-me, guardei a verdade que eu nem conhecia por inteiro e matei aos poucos o amor que sempre me deste. 

Queria ver-te novamente. Preciso desesperadamente de um abraço teu para me esquecer de tudo o resto que me rodeia. Mas se te chamar tu não vens e eu compreendo. Já me resignei com a tua ausência até porque fui eu a forçá-la. Queria que me ajudasses a sair deste quarto escuro, queria que me tirasses da cabeça todas as imagens dolorosas dos últimos dias. As lágrimas, os gritos desesperados, as questões retóricas... Perdi-me no espaço e no tempo e agora não te consigo encontrar de forma nenhuma. 

"Algumas vez gostaste de mim?" Ainda me lembro da tua voz enquanto me fazias esta pergunta. Olhei-te de esguelha e disse-te que "sim" sem qualquer convicção na voz. Devia ter gritado, devia ter corrido para te abraçar. Contudo, virei as costas e nunca mais te vi. Não chorei depois de ires embora. Fiquei aliviada com a tua ausência. Depressa me apercebi que faço parte do leque de pessoas mesquinhas de precisam de ter as mãos vazias para entender como é bom sentirmos algo entre os dedos. E eu, que sempre desprezei tal coisa, que sempre abominei os indecisos e os que se deixam embebedar pelas facilidades, tornei-me um deles.

Desculpa-me por não te ter dito todos os dias que te amava. Dei prazo de garantia ao nosso amor, desfiz-me de ti à primeira oportunidade. E talvez agora não compreendas, talvez agora não consigas ouvir, mas continuo a amar-te com a mesma força com que sempre te amei. Apaixonei-me por ti no dia em que em que me fizeste rir pela primeira vez. E a verdade é que não sei onde estás. Só sei que o teu silêncio é eterno assim como a tua ausência. 

O desenho do adeus

Desmentiste todos os mitos,
Mudaste todas as realidades
Calaste todos os gritos
E transformaste sonhos em verdades

De repente foste embora,
Com os sonhos que também eram teus
Partiste antes da aurora,
Fugiste do adeus.

Procurei-te, desesperada,
Gritei o teu nome no vazio
Mas de ti não soube mais nada
Perdi-me sempre no frio

Não me conformei, não aceitei
A tua ausência repentina
Nem tampouco imaginei
Que fosse esta a nossa sina

Guardei-te em rascunhos,
Desenhei-te em cada linha
Mas às tantas cerrei os punhos
Com a força que já não tinha

Já não me faz falta a despedida
Que nunca foste capaz de me dar
Só faz falta a vida
Que alguém nos decidiu tirar.

Doeu-me o corpo inteiro,
Fiquei com a alma em carne viva
Deixei as lágrimas em cativeiro
E ainda fiquei na expectativa

Hoje ainda acredito
Que um dia hei-de te reencontrar
Seja num poema escrito,
Seja no dia que começa a aclarar

Foste embora sem motivo nem escolha,
Sem discurso ou último pedido.
Mas renasces em cada Primavera que desfolha
Como se nunca tivesses partido.

M.