Não tenho dias específicos para sentir a tua falta. Antes os tivesse; preparar-me-ia para eles e talvez tudo fosse mais fácil. Nem sequer me posso habituar muito às saudades; há dias em que voltas e estás comigo durante algum tempo. Contudo, na maior parte das vezes estás longe e nunca me dizes para onde vais e quando voltas. Fico sempre chateada contigo e com razão para tal. Sei que não te consegues colocar no meu lugar porque caso eu fosse embora não sentirias minimamente a minha falta. Como te compreendo, nem eu sinto muito a minha falta. 

Não é da tua presença física que sinto falta até porque seria ligeiramente ridículo. Sinto falta de tudo o resto que tinhas, mesmo as coisas que acabavam por me irritar passado algum tempo. Tenho saudades de tever a olhar para as coisas sem nenhum outro intuito senão o de observar o mundo, tal e qual como se apresentava perante os teus olhos. Dessa tua mania estranha de olhares as pessoas e inventares uma história de vida qualquer, como se alguém estivesse efectivamente ao teu lado a partilhar contigo os seus momentos mais íntimos. Tenho saudades de quando agias instintivamente, sem ponderares demasiado as coisas, sem colocares dezenas de entraves. 

Faz-me falta o teu encolher de ombros e a forma como dizias "está tudo bem, isto passa". E passava mesmo. Não davas grande importância às coisas, ou pelo menos não lhes dava mais importância do que era suposto. Até tenho saudades das asneiras que fazias por não teres a maturidade que tens hoje. E as vezes que tu te queixas de teres crescido! Estás sempre a dizer que gostavas de parar o tempo, de ordenar as coisas na tua cabeça. Ah, e também perguntas muitas vezes que força idiota é que deu ouvidos aos teus pedidos para que a idade fosse passando. 

Tenho saudades de te ver fazer todas as coisas de que gostavas sem sentires culpa, sem pensares que estavas a perder tempo com algo que nunca seria importante. Tanto tu como eu sabemos como essas coisas eram importantes. Mas tu foste-te esquecendo disso e, a pouco e pouco, foste deixando para trás planos, foste ganhando medo do futuro. Logo tu, que nunca pensavas muito nele. Mesmo que não consigas perceber isso agora, faz-te falta não pensares tanto em tudo. 

Quando olho para as nossas fotografias vejo mais verdade do que toda aquela que poderia ver agora. Tinhas sempre uma expressão genuinamente feliz, mesmo que nunca te apetecesse realmente tirar fotografias. Temos isso em comum. Aliás, temos tudo em comum. Somos a mesma pessoa. Tu ficaste nas fotografias, eu fiquei com as memórias dos momentos que as antecederam e que as sucederam. Tu ficaste com a cabeça cheia de sonhos e eu fui deitando tudo fora. Tu ficaste com a cabeça arrumada e eu desorganizei tudo. Tu foste parando no tempo e eu continuo sem saber como pará-lo. 

Não há nada pior do que sentirmos saudades de nós próprios. De saber que éramos tão felizes e que só éramos assim precisamente porque não pensávamos nisso. E tu eras tão feliz. Éramos tão felizes. Ainda o sou, sobretudo nos dias em que te tenho comigo e juntamos a nossa melhor versão: a tua felicidade despreocupada e a minha cabeça com um bocadinho mais de juízo. Há dias em que ainda tiro fotografias e estou verdadeiramente contente. Há dias em que continuo a fazer as coisas sem ponderar mais nada. Há dias em que digo "está tudo bem, isto passa". Há dias em que gostava de parar o tempo e pergunto que força idiota é que me deu ouvidos quando disse que queria crescer. Há dias em que olho para as pessoas e invento histórias como se as estivesse a ouvir realmente e como se elas fossem verdadeiras. E até há dias em que olho para as coisas com o simples objectivo de observar o mundo. 

Em todos os outros dias em que essas coisas não acontecem, sinto saudades tuas, minhas. Estás numa outra dimensão de mim que eu ainda não consegui desvendar por completo e não acedo a ti sempre que me apetece. Mantivemos uma constante ao longo de todos estes anos; acreditar piamente que as coisas podem sempre mudar para melhor. Umas vezes precisamos de ajuda, outras vezes precisamos de tempo e muitas outras vezes até precisamos de ambas. Mas no fundo, tanto tu como eu, a mesma pessoa, sabemos que "está tudo bem, isto passa".