Senta-te perto de mim. Não tenhas medo, a sério. Não te quero encher de perguntas, nem quero saber nada que não me queiras contar. Quero apenas ouvir-te. Basta-me a tua voz. O resto é da tua conta. Podes contar-me como foi o teu dia hoje, podes falar-me acerca de um momento qualquer que te marcou na infância ou podes até gozar com a roupa que trago vestida. Faz o que te apetecer. Não me importo. Confia em mim. Está tudo por tua conta. 

 Estás a esforçar-te demasiado. Posso pedir-te para não pensares, mas é impossível. Não há vida sem pensamento, ainda que os pensamentos possam ser ridículos ou ridiculamente geniais. Existem, apenas. Tenta focar-te em coisas nas quais gostes de pensar. Pensa em como sabe bem andar de carro no verão, com os vidros abertos, a tua música preferida no rádio e a tua cabeça isenta de coisas que não interessam. Não interessam a ti, a mim e a ninguém. Pensa no contentamento que sentes quando estás com as pessoas de quem mais gostas. Às vezes nem dás por ela. Deixas-te distrair pelo riso, pelas histórias e pelos sonhos com aventuras aqui e ali. Pensa nisso. O resto é tão inútil. 

 Começas a sentir-te melhor. Até a tua voz deixou de tremer. Esboças um sorriso ainda trémulo que, aos poucos, se vai fixando no teu rosto com mais força. É isso que quero ver. E como tu, eu também penso e sei que o sorriso não é permanente, contudo há sempre uma maneira qualquer de o repescarmos, como se andássemos constantemente com uma cana e um anzol na mochila. A melhor parte é que não tens de te levantar cedo, ainda antes do sol nascer, para te sentares à beira dum rio qualquer. Já viste como é possível simplificar tudo? 

 Se há alguma coisa que não fazes, na maior parte das vezes é porque impões a ti mesmo que não a consegues fazer. Essa passividade dá cabo de ti. Mexe-te com a cabeça enquanto assistes ao desenrolar de um filme demasiado assustador por detrás dos olhos. Não gostas de ficar sem fazer nada, a ver a vida como se fosses um mero espectador. E eu pergunto-te, quebrando a regra que impingi a mim mesma no início, o porquê de não entrares no filme? Olhas-me surpreendido e começo a achar que exagerei nas analogias cinematográficas. Ao fim de algum tempo, acenas com a cabeça e dás-me razão, ainda que em silêncio. 

 Em minutos, deixaste a cadeira para ires à janela. “Está um dia bonito lá fora”, dizes-me, ainda sem olhares para mim. Concordo contigo. Quebro uma vez mais a minha regra e pergunto-te: “então o que estamos a fazer aqui dentro?”. O teu sorriso fixa-se um pouco mais e estendes-me a mão. Sei de imediato que não preciso de desrespeitar a minha regra pela terceira vez. Às vezes existem respostas que não precisam de qualquer pergunta.