De vez em quando escrevo cartas a pessoas que não conheço. Estranhos que passam por mim na rua, desconhecidos que vejo na fila do supermercado. Gente a quem não associo nenhum nome mas a quem dou uma história. Às vezes sinto que tenho um desígnio qualquer que me permite imaginar a história de uma pessoa que nunca vi antes na vida como se tivesse passado uma viagem de autocarro a ouvi-la divagar.

Acontece-me em todo lado, até nos sítios mais inusitados. Mesmo quando saio do trabalho, sem cabeça para quase nada. Basta ver um estranho e começo a escrever tudo na minha cabeça. Decoro-lhe os tiques; a forma como ajeita o cabelo, a maneira como acende um cigarro e até o trejeito do andar. A partir daí tudo se transforma numa folha branca, estendida à minha frente para que lhe possa dar vida. E faço-o da melhor maneira que sei. 

Gosto especialmente de o fazer com pessoas mais velhas que me lembram invariavelmente os meus avós. São quase como livros antigos que nos fascinam de imediato quando os encontramos numa prateleira. Pegamos neles com cuidado, não porque são fracos ou velhos, apenas por respeito. E já é um "apenas" enorme. Folheamos as páginas devagar para não perdermos nenhum detalhe. Sublinhamos ao de leve o que nos toca mais. Seja uma frase, uma palavra ou um capítulo inteiro. Queremos que dure o máximo de tempo possível e se, mesmo assim, acabar depressa, podemos sempre voltar a ler o livro, à procura do que nos escapou ou de entender outras coisas que ainda não tínhamos percebido. 

Faço-o pelo simples prazer que é conhecer alguém. Perceber onde e no que falharam e perguntar-me se teria feito alguma coisa diferente, caso estivesse no lugar deles. E faço-o também pelo conforto egoísta de perceber que, no fundo, há coisas que nos são comuns a todos, dores transversais. São de facto coisas tão comuns a toda a gente que muitas vezes deixo de fazer a pergunta: "será que só me acontece a mim?" Já sei que não. Já aconteceu a mais alguém, ainda que eu não lhes tenha dirigido nenhuma carta nem inventado nenhuma história.

É através dessas histórias que vivo épocas que não a minha e visito-as até ao mais pequeno detalhe, sempre às costas de quem me conta a sua vida. Partilho as dores daquelas pessoas sem nunca as ter sentido realmente e fico com saudades de coisas que não são minhas e que nunca vivi. Acabo por associar todos os sítios por onde passo a alguém. Às vezes confundo as histórias dos outros com a minha e fico na dúvida se aquele lugar me lembra alguma memória minha ou de outra pessoa qualquer. No fundo, nunca me interessa muito. Guarda uma história e é o suficiente.

Depois encontram as minhas cartas espalhadas por todo o lado. Em casa, no carro, nos bolsos dos casacos e perguntam-me sempre se é real e para quem escrevi aquilo. É sempre real, ainda que as histórias não sejam minhas. Escrevi-as para mim mas também as escrevi para os outros. A história que escrevemos na primeira pessoa não é a única que existe. Faço questão de me lembrar sempre disso.