Vazio palpável

Se, por ventura, não sentisse a tua falta, não me lembraria tão bem de ti. Não teria os teus olhos cravados na minha mente e, consequentemente, talvez não me lembrasse da cor deles e das coisas que me diziam quando olhavas para mim. Se, por algum acaso, não sentisse saudades tuas, não pensaria em ti com a mesma frequência, com o mesmo calor que se espalha pelo meu peito e vem ter aos meus olhos na forma de lágrimas. Fui aprendendo a aceitar esse choro que tanto me faz desabar como, de um momento para o outro, me deixa a rir quando me recorda das tantas e tantas coisas que fizemos. Mas essa aceitação não me faz compreender o porquê de já não estares por aqui. 

Queria ter feito tantas outras coisas. Nunca tive oportunidade para tal. Deixei-me vaguear na impressão ridícula de que as coisas más só acontecem aos outros, como se vivesse algo dentro de mim que me tornasse imune a tudo o que é mau. Mas de vez em quando também somos bafejados pelo azar. Sinto que veio muitas vezes bater-me à porta e eu não a abri. Até que um dia me cansei de acordar com aquele barulho irritante e fui ver quem era. Foi nessa altura que te levaram, sem me pedirem primeiro, sem deixarem acontecer uma despedida, por mais pequena que fosse. Fiquei a ver o teu vulto andar numa direcção oposta, a seguir outro caminho que não aquele que imaginámos tantas e tantas vezes.

As coisas que queria ter feito contigo ficaram arrumadas num sítio qualquer que não sei descrever muito bem. Não gosto de deambular por lá. Fico consumida por uma tristeza que não consigo diminuir de maneira nenhuma. Afoga-me o corpo num transe demasiado profundo. Faço coisas que não me são características nem nos meus dias mais "anormais". Contudo, ainda penso em ti mais vezes do que aquelas que gostaria. Espera, não me interpretes mal. A única coisa que me faz não querer pensar em ti é o meu egoísmo exacerbado, a vontade de não querer sofrer com o facto de não estares perto de mim. 

Disseram-me que os planos tinham ficado somente adiados. No entanto, que motivos tenho eu que me levem a pensar que um dia voltaremos a ser capazes de concretizar tudo o que sonhávamos? Cansei-me de viver dessa esperança desesperada de quem quer arranjar uma desculpa qualquer para amansar a dor. Entendo o que vejo e a tua ausência é quase palpável. Sinto-me capaz de agarrar o ar que deslocaste quando te afastaste de mim. Não te vejo e isso não me faz acreditar em nada, ainda que, se acreditasse, talvez me fizesse sentir melhor. 

Gostava de não ter aberto a porta naquele dia. Gostava de ter ficado onde estava, com a preguiça que me é característica a tomar conta de mim uma vez mais. Mas não, logo no dia em que devia ter cedido a ela com todas as minhas forças (ou fraquezas), levantei-me e, sem olhar pelo óculo da porta, abri-a com uma força irritada e desfiz-me de ti sem querer. De que me adianta arrepender-me disso? Só me dizem que "a vida é mesmo assim" e que "tinha de acontecer". Não me convencem. Não me dão argumentos suficientemente sustentáveis para que eu acredite que aquele foi um desígnio qualquer da vida. 

Então, foste embora. É a única coisa que importa reter. Foste embora como se não fosses deixar para trás nada que importasse, que te fizesse ter vontade de ficar. A verdade é que não escolheste. A liberdade condena-nos a isto, a achar que podemos escolher as coisas e no fim sermos apenas espectadores da vida e de tudo aquilo que ela nos dá (ou tira). Há apenas os que ficam e os que vão, sem motivo aparente, sem nada que distinga uns dos outros a não ser o ar à volta de um corpo e o ar no lugar de um corpo. 

Sinto-me revoltada, não resignada. O tempo fez com que me habituasse à tua ausência como nos habituamos a tantas outras coisas. Mas não a tornou aceitável, não me fez compreender o porquê dela e muito menos deixar de sentir a tua falta. Muito pelo contrário. Amargou o teu nome e manchou a tua memória porque no fim de contas foi escassa. O que teríamos para fazer não fizemos e o que fizemos não foi suficiente. 

Talvez já esteja tocada pelo sono ou seja apenas a saudade a falar, mas espero sinceramente que, de alguma maneira, possa rever-te noutro sítio qualquer. Seria capaz de reconhecer-te de qualquer forma e essa é a única certeza que tenho. O resto... o resto não importa. Não importa em que vida ou universo nos encontremos. Nem sequer me importa que não façamos mais do que aquilo que já foi feito. A única coisa que quero é ter-te ao meu lado mais uma vez, sem que o peito me doa, sem que as lágrimas me remoam e sem que o teu nome tenha um sabor agridoce na minha boca.