Tenho saudades tuas

Hoje esperei mesmo encontrar-te quando abri a porta de casa. Foi um momento puramente ingénuo. Abri a porta e quase chamei por ti. Mas depois apercebi-me imediatamente do meu erro e dei por mim a chorar como se tivesse acabado de perceber que nunca mais estarias em casa.

Fazes-me muita falta. Fazem-me falta os teus olhos quando regresso a casa depois de um dia cansativo. Fazem-me falta as tuas brincadeiras quando me sinto triste. Fazem-me falta as tuas correrias pela casa como se tivesses a melhor vida do mundo. E dou por mim a pensar muitas vezes se a tiveste realmente, se foste feliz enquanto estiveste por aqui. 

Às vezes também me pergunto se terei feito tudo o que podia por ti, se terei tomado a decisão certa. Sei que o fiz mas às vezes custa tanto fazer as coisas certas. Podia ter escolhido o caminho mais fácil, com uma dose grande de egoísmo da minha parte. Tudo para não sofrer, para não sair de casa contigo com a consciência de que voltaria sem ti. 

Vejo as tuas fotografias e choro. Perco o sono à conta disso porque sinto genuinamente a tua falta. Queria tanto que tivesses visto a Primavera chegar e que pudesses deitar-te com as outras duas na varanda, com os olhos fechados à força do sol. Sabes, a tua amiga sente a tua falta. Às vezes fica tempos e tempos a arranhar a porta do quarto onde passaste os teus últimos momentos cá em casa. Quando lhe abro a porta, vai-te procurando debaixo da cama, em cima dos lençóis que entretanto mudei mas que ainda devem ter o teu cheiro. Depois olha para mim e sai do quarto. E estes pequeninos momentos só me fazem ter a certeza de que vocês sentem, talvez até mais do que muita gente.

E eu, tal como ela, também dou por mim a ir àquele quarto de vez em quando. Mas eu sei que não estás ali e aquele sítio só me faz lembrar dos momentos que não quero recordar acerca de ti. Quero-te lembrar como da primeira vez em que te vi e em que soube imediatamente que te havia de trazer cá para casa. O mesmo dia em que me arranhaste pela primeira vez enquanto brincavas comigo. E agora olho para as minhas mãos e as pequenas dentadas que me deixaste já estão quase a cicatrizar. Dentro de dias não terei qualquer marca tua em mim, pelo menos fisicamente.

Vou-me lembrar sempre de ti a atacares os três pratos de comida ao mesmo tempo, a correres pela casa fora em brincadeiras e tropelias, a abrires a boca para miares e a não sair qualquer som. Qualquer ser que nos marque realmente, não precisa de estar muito tempo connosco. Basta que goste de nós verdadeiramente e que nos faça sentir isso todos os dias. Tu fizeste-o todos os dias em que regressei a casa e vieste ter comigo como se já não me visses há meses. 

Queria ter-te visto a crescer. Mas tu foste sempre grande. Foste sempre a melhor do mundo mesmo que não conseguisses subir para a janela ou para mesa sem ajuda. E eu nunca me importei de pegar em ti e pôr-te onde quer que quisesses estar. E tu nunca te importaste de olhares para mim com um "obrigado" espelhado nos teus olhos. 

Talvez venha a ter muitos animais, talvez venha a viver numa casa rodeada de outros animais que, caso seja bafejada pela sorte, seja capaz de ver a crescerem. Mas vou ter sempre um lugar para ti em mim. Não são só as pessoas que nos fazem crescer. Essas dão-nos palavras e abraços. Isso é mais fácil, consigo entendê-las imediatamente. A ti, tinha de te ler de outra maneira e entendia-te bem. Vou dar por mim a abrir muitas vezes a porta à tua amiga e eu hei-de entrar também, sempre com a mesma vontade de encontrar-te mas com a mesma certeza de que não estarás lá. Contudo, posso garantir-te que vives no sítio mais eterno que pode haver; dentro do peito, junto ao coração e na minha cabeça, nas memórias que repito vezes e vezes sem conta sempre com a mesma saudade. 

Tenho saudades tuas, Texugo.