Humanidade

São vocês que nos escolhem. Dizer outra coisa qualquer nada mais seria do que uma mentira. São vocês, dentro dos pequenos espaços onde sobrevivem com a companhia uns dos outros, sem saber o que vos reserva o dia de amanhã. Ou então quando escolhem vir ter connosco por entre um emaranhado de silvas e terra. E nós acolhemo-vos por muitos motivos. Talvez o mais forte seja mesmo esse amor incondicional que dão a um estranho, esse olhar ingénuo que nos torna pequeninos novamente, como se passássemos a ver o mundo sem maldade nenhuma.

Mas ela existe. Existe naqueles que vocês não escolhem, mas também existe naqueles a quem vocês se dão sem pedir muito em troca. Naqueles que vos tratam mal, naqueles que vos batem, que vos gozam e que vos matam sem um ponta de humanidade. Saem impunes. Vocês não têm voz, não vos são erguidos monumentos nem lápides. Passam despercebidos porque não são humanos. E, contudo, tem mais humanidade do que tanta gente.

Ter-vos comigo significa nunca estar sozinha. Sinto-me a pessoa mais importante do mundo a partir do momento em que entro em casa e vocês vêm ter comigo. Ficam a mirar-me curiosos, quase como quem pergunta como correu o dia. Por muito que até possa ter corrido mal, anima-me sempre a vossa companhia. Quem não fala, sabe ouvir. Vocês fazem-no melhor que ninguém. Mesmo sem perceber nada, mesmo sem responder de forma compreensível, estão aqui e, convosco, a casa está sempre cheia.

Quando vocês vão embora fica um vazio inexplicável e, ao mesmo tempo, chega a necessidade de acolher mais um porque fica-nos no peito esse tal amor incondicional que tem de ser dado a mais alguém. Hei-de ter animais enquanto me for possível. Mesmo que doa demasiado ficar sem um de vocês, há sempre mais alguém com capacidade para encher uma casa e uma vida. Em mim, há monumentos para todos vocês e lembro-me de cada um como se ainda os pudesse ver todos os dias.

Cresci muito convosco. Sofri muito convosco. Mas, na maior parte das vezes, sou mais feliz convosco. E isso basta-me. Gosto de ter o coração mole quando vos vejo a estragar as cortinas ou a tentar entrar nos armários à socapa. Não me consigo zangar convosco. No vosso mundo vocês não estão a fazer nada de mal. Ainda assim, vou tentando ensinar-vos a brincar com outras coisas. Faço cara de má mas vocês não me levam a sério. E a verdade é que vocês nunca deveriam ter de levar nada a sério. Deviam viver sempre com a mesma calma com que dormem ao fundo da cama, de olhos fechados, enroscados uns nos outros.

Só queria que muita gente tivesse a mesma humanidade que vocês. Só queria que muita gente experimentasse esse amor que vocês têm pelos outros. Queria que vos deixassem de tratar como mercadoria, como se fossem uma marca cara de roupa embelezada numa montra. Queria que vos tirassem da rua, dos sítios onde outras pessoas cuidam de vocês mas sem meios para vos dar tudo aquilo que vocês precisam. No fundo, só queria que as pessoas se sentissem verdadeiramente felizes por serem escolhidas. Por vocês, é claro.

E por muito más que as coisas pareçam, garanto-vos que ainda há gente com humanidade, gente que vos respeita e que vos dá voz. E enquanto essas pessoas existirem, vocês terão sempre uma palavra a dizer. A culpa não é vossa. Nunca foi. A culpa é da humanidade, ou melhor, da falta dela.