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Inconsciência livre

Escolhes atalhos, caminhos que não levam a lado nenhum. Perdes-te em sítios que não conheces com gente que não ficará contigo muito tempo. Pensas que a vida é difícil mas és tu quem constrói as barreiras, és tu que ergues os muros, és tu que escolhes tropeçar. Talvez não o faças de propósito. Tens tanta sede de liberdade que não te apercebes de que ela termina quando a dos outros começa. Destróis quem te quer bem e ficas perto de quem te quer destruir.

Não tenho mais conselhos para te dar. Estou cansada. Dói-me ver-te cair constantemente. Custa-me ver-te nessa vida que levas aos trambolhões, sem certezas do que é certo e com crenças firmes no que te faz mal. Já gastei as lágrimas que não sabia ter e a paciência que julgava infindável. Vejo-te sempre na mesma ruela, com o olhar apagado, com a alma a pedir descanso, com o corpo dormente. Mas levantas-te assim que alguém abre uma janela e entras sem pedir licença. Sais pouco depois com a cabeça a explodir. O coração não te dói; acho que o perdeste algures no escuro da noite.

És inconsciente. Ages sem pensar e esqueces-te de que as coisas têm consequências. Mas elas nunca recaem sobre ti. Ficam sempre com aqueles que se preocupam, com as pessoas que te vêem na ruela e te abrem uma porta. Escolhes sempre não entrar. Preferes o risco do desconhecido, as caras que um dia deixarão de ser familiares e os nomes que nunca mais irás recordar. E eu vejo-te ao longe. Sinto-me inútil.

Atrai-te a noção de amor, de romantismo. Apaixonas-te sempre por quem te estende a mão, por quem te olha carinhosamente quando no fundo, nem sequer espera ver-te amanhã. Evocas sentimentos sem sentir o sabor das sílabas, chamas pelos outros quando te vês num quarto sem janelas. Todos somos seres errantes mas tu não o admites. Deleitas-te com as vitórias de hoje e esqueces-te do sítio de onde vieste. Até já te esqueceste do sítio para onde querias ir. 

Não te deixei fugir. Aconteceu de um momento para o outro. Olhei para o lado e de repente já não estavas à minha beira. Tentei chamar-te mas as sílabas do teu nome arranhavam-me a garganta. Desisti. Não vale a pena lutar por uma pessoa que não quer lutar por si própria. Às vezes pergunto-me acerca do que pensarás quando te vês ao espelho. Sabes quem és? Ainda te lembras dos sonhos e objectivos que tinhas? Ou perdeste-os por aí?

Talvez um dia aprendas a dar valor à vida e às pessoas. Pode ser que um dia acordes e compreendas que nada se decide com um lançamento de dados. O que hoje te parece uma certeza, não passará de um erro crasso do qual te arrependerás um dia. E eu cansei-me de tentar explicar-te algo que está à frente dos teus olhos. No fim, cerras sempre as pálpebras e finges não ver.