Lucidez

E se eu te dissesse que ainda há uma parte de mim que continua a gostar de ti? Bastava-me um segundo de uma coragem que não tenho. Talvez não a venha a ter. Estou demasiado lúcida para me perder nas criações que se passeiam nos corredores do meu cérebro. Mas essa lucidez é a mesma que me permite estar consciente de que continuas a ter um efeito estranho em mim. 

Continuarmos a gostar de alguém não significa obrigatoriamente que queiramos estar novamente com essa pessoa. Às vezes é tudo o que me apetece, confesso. Silencio a vontade que me nasce no peito e que me diz para ir ter contigo. Já não sei por onde andas e talvez já não seja capaz de te reconhecer no meio de uma pequena quantidade de gente. 

Noutras alturas, lembro-me bem do porquê de já não estar contigo. Se num dia me vejo consumida por isso, no outro sei que não poderíamos ter feito as coisas de outra maneira. E mesmo que as fizéssemos, o que me garante que ainda te teria por perto? Teríamos acabado de outra maneira, distantes como hoje, a culpa de um lado ou do outro ou até dos dois. Já não interessa escrutinar os detalhes de algo que já não existe. Mas o problema está aí. Parte disso ainda existe. Está alojado em mim e eu não me consigo livrar disto. 

Se tentei? Muitas vezes. Perdi-lhes a conta. Quando esgotei o calendário, inventei uma outra maneira de saber o número de vezes em que pensei em ti. Não imaginava que seriam tantas. Não esperava que viesses ter comigo nos momentos mais inoportunos. Cruzaram-se comigo pessoas com um perfume igual ao teu, com os olhos da mesma cor, com uma letra copiada a papel químico das tuas cartas. Contudo, não eras tu. Outras pessoas diriam que era o universo a conspirar contra mim. Muitas vezes fui eu que quis sentir o teu perfume quando inalava outro completamente diferente, fui eu quem quis ver os teus olhos pousados no meu rosto, fui eu que me lembrei das cartas. 

É provável que esse pedaço de mim nunca venha a mudar. Não me esforço para que isso aconteça. E é quase certo que nunca venhas a saber disso. É o meu segredo mais bem guardado, daqueles que não contamos a ninguém porque o simples facto de admitirmos as coisas em voz alta torna tudo mais real. Não pode ser real. Já não pode haver espaço para isso. Mesmo que eu saiba que ao contrário das relações, o amor não tem validade, os meus argumentos... esses já não são válidos. São uma mescla estranha de arrependimento e da certeza que não teria mais nada para te oferecer. Por muito que os anos me tenham mudado, por muito que eu tenha crescido, o resto continua igual. 

Nem me atrevo a falar contigo, com receio que ainda saibas ler nos meus olhos tudo aquilo que não sou capaz de dizer. E caso o fizesses, sei que não me dirias nada que eu quisesse ouvir. Se em tudo o resto dou valor ao conhecimento, neste caso prefiro ser ignorante. Prefiro viver sem saber nada sobre o assunto, com a verdade exposta nos meus pensamentos e em mais lado nenhum. Assim continuo lúcida, com a consciência absoluta de que pouco ou nada posso fazer. Se tenho medo que me leias os olhos, também sei que reconheceria a tua resposta ainda que não dissesses palavra nenhuma.