Recebi uma prenda do meu avô há alguns dias atrás. Não estava à espera. Olhei-o surpreendida. Tinha o mesmo ar de surpresa como quando o vi a usar a máquina de escrever pela primeira vez. Sempre me fascinou. E ao mesmo tempo, sempre foi um objecto assustador. A forma crua como o barulho das teclas ecoava pela sala enquanto o meu avô escrevia com a rapidez de uma gazela. É um dos aqueles momentos em que nos podemos transportar para outro tempo qualquer. Fechamos os olhos e vemos tudo com uma nitidez atordoante. Temos a mesma idade, a mesma curiosidade e até aqueles sapatos dos quais não nos lembrávamos. 

Sempre vi a máquina de escrever como algo sério. Na altura, nem sequer sabia ler. A única coisa que sabia (ou pensava saber) era que tudo aquilo que o meu avô escrevia através daquela máquina eram coisas sérias, papéis formais. Não podia errar. Lembro-me bem da quantidade de folhas amassadas ao longo da mesa por um simples acento ao contrário ou pela ausência de um qualquer. O meu avô fazia-me lembrar um guitarrista, ainda que dedilhasse teclas ao invés de cordas. A melodia não era tão bonita; só impunha respeito. 

Veio ter comigo com os braços estendidos. As mãos seguravam na máquina com a mesma força com que, anos antes, a tinham usado para escrever folhas e folhas. Podia estar coberta de pó, mas acho que o meu avô sempre teve o cuidado de limpá-la de vez em quando. Não me disse nada quando me ofereceu o presente. Virou as costas e voltou a sentar-se no sofá, com o olhar direccionado para a televisão. 

Deixei a máquina dias e dias parada. Não me servia para nada. Até que descobri que nem tudo o que meu avô escreveu nela, tinham sido coisas sérias. Aliás, eram sérias também, mas não tinham muito de formal. Encontrei meia dúzia de folhas cheias de vincos. Eram de um branco gasto mas a tinta continuava perfeitamente legível. Li uma, duas, três e só quando cheguei à quarta me apercebi de que estava perante cartas de amor. E fiquei novamente surpreendida ao dar-me conta de que, afinal, aquela máquina assustadora, cujas teclas tinham um barulho seco e não permitiam enganos, servira também para escrever cartas de amor. 

Obviamente que cedi ao impulso e fui imediatamente procurar um sítio que vendesse tinta para a máquina. Encontrei-o. Comprei quase tudo o que havia e quando voltei para casa, coloquei a máquina em cima da secretária, sentei-me na cadeira com as costas direitas, como vira o meu avô fazer tantas vezes. Usei o “a”. Ou melhor, tentei usá-lo. Não estava no mesmo sítio onde está o “a” do teclado do meu computador. Olhei para as teclas durante alguns minutos, de forma a perceber mais ou menos o esquema delas. Quando comecei a escrever, não saiu nada de jeito. Lugares comuns, citações, frases absurdas… 

Cansei-me da máquina e voltei a colocá-la no mesmo sítio. Não conseguia perceber o que tinha falhado. Pensei que devia estar tudo relacionado com o facto de não estar habituada à máquina. Ou então, eu escrevia melhor à mão, onde não tinha medo de errar em nada e riscar tudo. Ao fim e ao cabo, o meu erro foi estar à espera de uma magia qualquer causada pela máquina. Demorei algum tempo até me lembrar que há sempre alguém, cujos dedos pairam sobre as teclas à espera da próxima palavra. Naquele caso, eram os meus. Nas cartas de amor que lera, foram os do meu avô. E ao olhar para as cartas uma vez mais, também percebi que existiam rabiscos, gatafunhos, riscos por cima de algumas palavras. 

Parece que errar é transversal ao amor. Não interessa quem esteja a escrever, a falar ou simplesmente a pensar. É-nos permitido errar. Até o meu avô, que desperdiçou folhas e folhas de papel, compreendeu que não há nada de mal em errar quando se fala de amor. Provavelmente foi esse medo de errar que não me permitiu dedilhar as teclas. E provavelmente, foi a ausência de coisas para dizer que me fez não escrever nada de jeito. O mais provável ainda, é que a tua ausência já se tenha prolongado por muito tempo e o que sentia por ti foi esmorecendo. O amor também esmorece, como tudo. Até as cartas do meu avô esmoreceram e perderam a cor e a tinta da máquina secou com o tempo.

*Ficcional