Cobriram-me o corpo de gesso. Sinto-me incapaz de me mexer. As mãos não me obedecem, os pés não dão sinal de vida e os meus lábios recusam-se a deixar passar ar algum que possa formar uma única palavra. Estou viva, ainda assim. Tenho as costas geladas, sinto as costelas demasiado agarradas à pele. Devo estar deitada num passeio ou até no meio da estrada. Não sei bem. Ainda não me consigo mexer e começo a ficar verdadeiramente assustada. 

Ouço passos. O ritmo deles é hesitante. Não estou em casa. Provavelmente alguém me terá visto e ainda estará a pensar se deverá aproximar-se ou não de mim. Espero que o façam. Não quero que me assinem este gesso, quero que o desfaçam. Pouco me importa se é ao pontapé ou de outra maneira qualquer. Neste momento só quero sair daqui. Quero ir para casa. 

 Sinto o ar mover-se à minha volta. Ajoelhou-se alguém à minha beira. Agarra-me na mão, abana-me os ombros com pouca força e pergunta qualquer coisa. Não percebi. Parece que para além das capacidades motoras, perdi também as cognitivas. E daí, talvez não. Ainda me apercebo do que me rodeia. Volto a ouvir a voz. É mais clara, pautada pelo medo de alguém que não sabe bem o que fazer. Tremem-me as pálpebras e decido experimentar abrir os olhos novamente. Cega-me a claridade da manhã quando as minhas pestanas se descolam. Há uma névoa qualquer. Faz-me lembrar a altura em que comecei a usar óculos e não me sentia capaz de viver sem eles. 

Demoro alguns segundos a adaptar-me à luz do sol. De repente perco-a de vista. O vulto inclinou-se e está a olhar para mim. Não conheço o homem de lado nenhum. Pergunta-me se estou bem. As minhas capacidades cognitivas estão intactas. Sei disso porque consigo pensar numa mão cheia de respostas sarcásticas que poderia dizer. Não as digo. Alguém me ajudou a partir o gesso e a sentir novamente controlo sobre o meu corpo. Tento acenar com a cabeça porque ainda não encontrei a voz. Agora pergunta-me se me quero levantar. Imagino mais respostas sarcásticas e agarro-lhe nas mãos para que me ajude. 

Quando me levanto, não há sombra de dúvida que estou na rua. Os paralelos sujos do passeio não me deixariam inventar outra realidade mesmo que eu quisesse. Respiro fundo. Não me lembro de nada. É provável que tenha bebido demais, me tenha perdido das pessoas com quem estava e tenha ficado aqui caída a fazer uma figura ridícula. 

E então o homem pergunta-me onde moro. Abano a cabeça como se não tivesse percebido a pergunta. Desta vez pede-me para lhe dizer o caminho para minha casa. Quer chamar alguém para me levar ou quer telefonar a não sei quem. Perdi o resto do discurso depois da palavra "casa". Olhei para as minhas mãos e quando voltei a encarar o senhor, a única resposta que me ocorreu foi o teu nome. Não para que ele te ligasse e te pedisse para tratares de mim. É só que o teu nome e a palavra “casa” são quase a mesma coisa para mim. Já imaginaste a minha figura a dizer a um taxista para me levar a casa e dizer-lhe o teu nome quando me perguntasse em que rua moro? "Esse era um escritor ou um presidente? 

Quando nos perguntam onde fica a nossa casa, as pessoas esperam uma coisa mais concreta. “Vivo na rua tal”, “vivo perto da estação de metro”, “vivo no cu de Judas”! Ninguém espera ouvir o raio de um nome. Fiquei calada. Levantei-me quando pude e agradeci ao senhor em silêncio. Deve ter ficado desconcertado com a minha estupidez. Sim, sou realmente estúpida quando me perguntam onde vivo e a única resposta que me vem à cabeça é dizer o teu nome. 

A verdade é simples. É sempre mais simples do que outra coisa qualquer. Fizeste-me sentir em casa mais vezes do que podes imaginar. Foste um conforto muito maior do que as almofadas da minha cama, as cortinas da minha janela e até a fechadura da porta de entrada. Eras o lugar onde não fazia mal estar despenteada, andar descalça, deixar a luz acesa e adormecer no sofá durante a tarde. E eu sentia-me em casa quando os teus braços eram melhores do que quatro paredes de cimento à minha volta. Sentia-me sempre em casa, mesmo quando me levavas para o outro lado do mundo, para sítios onde a comida era intragável e a língua não se entranhava. Estava em casa. Era o suficiente. 

É claro que só me poderia ocorrer o teu nome. O sítio onde vivo é um dado meramente biográfico. Teria sido útil ao homem que me queria ajudar, mas não me faria sentir melhor. Ontem não bebi, não fui sair com os meus amigos, mas fiz, de facto, uma figura ridícula. Fui à tua procura. Queria ir para casa. Mas se às vezes somos nós que mudamos de morada, outras vezes é a casa que se muda para outro lugar. Isto tudo só serviu para passar uma noite ao relento, dar cabo das costas e sujar a roupa toda num passeio imundo. Nem a vista era bonita. Devo ter andado muito e caí de cansaço por ali.

O pior de tudo é que não cheguei a casa. Não cheguei a ti. 

*ficcional