Quem me dera estar neste momento com um desgosto de amor. Daqueles que nos desmancham por completo, que nos fazem sucumbir a qualquer momento do dia. Um desgosto que me deixasse tonta, sem saber como seguir com a minha vida, como se de um momento para o outro já não pudesse ter outras escolhas que não chorar a amargura de um amor perdido. Um daqueles desgostos que me fizesse escrever textos todos os dias, lavada em lágrimas e inundada em músicas piegas com as quais me pudesse relacionar e pensar que foram escritas exclusivamente para mim. Mas não, não tenho nenhum desgosto de amor.

Quem me dera que tivessem avariado todos os electrodomésticos de casa. As televisões, as consolas, o fogão, a máquina de lavar… Ah, e até o frigorífico. Já me imagino a correr à procura de uma toalha para absorver o gelo que se fôra desfazendo em água e no fim de contas, com as calças arregaçadas pelos tornozelos e os pés descalços, olhar para o congelador e ver as delícias do mar a descongelarem a um ritmo alucinante. E os bifes de frango, claro! Só para ficar a pensar numa receita qualquer que pudesse ser feita sem fogão e chorar quando me apercebesse de que não havia nada a fazer senão velar a comida. Mas não, está tudo a funcionar (e quase tudo tem ainda garantia).

Quem me dera que acabasse o gás a meio do banho, em pleno Inverno. Dava para bater com a cabeça na parede e pensar “acaba sempre quando sou eu a tomar banho”. E já de cabelo encharcado, enrolar-me-ia na toalha e ao sair da banheira repararia que não tinha levado chinelos. O chão ficaria cheio de pegadas molhadas desde a casa de banho até à varanda. Quando lá chegasse já sei que me iria irritar ao tentar tirar o invólucro da garrafa de gás e que ia penitenciar-me por roer as unhas e não as poder usar para abrir coisa nenhuma. Quando finalmente mudasse a botija, voltava para o banho, já com os punhos fechados de raiva e aos tremeliques enquanto esperava que a água voltasse a sair quente. Mas não,a botija de gás não tem falhado quando eu estou a tomar banho.

Quem me dera chegar ao supermercado para fazer as compras do mês e ver tudo vazio. Já me imagino a esbracejar, a pedir o livro de reclamações e a repetir vezes sem conta que é tudo inadmissível. Tudo isto enquanto a minha barriga ruge com fome e a minha cabeça explode de frustração. O gerente desfazer-se-ia em desculpas e explicar-me-ia que houve uma coisa qualquer que impediu o supermercado de repor os produtos e de satisfazer as necessidades dos clientes. Quando chegasse ao carro, ia começar a chorar de raiva, a rogar pragas aos carrinhos de compras e às portas automáticas que também não quiseram abrir quando saí a correr do supermercado. Mas não, salvo uma ou outra coisa, o supermercado tem quase tudo o que preciso.

Quem me dera ter qualquer coisa que justificasse sentir tanto. Saber o porquê de me irritar, de sentir o coração destroçado, a cabeça a explodir, a barriga a rugir, as pernas a tremerem e, principalmente, a sensação de estar com as mãos atadas, sem poder fazer nada a não ser tentar respirar fundo, não ceder às náuseas e às tonturas e não pensar. E esta última é tão difícil! Como é que se pára de pensar? E quando é que se começa a pensar em coisas que nunca fizeram sentido? Detesto não saber como as coisas começam e odeio ainda mais não ser capaz de acabar com elas quando me convém. Se ao menos fosse um desgosto de amor, um electrodoméstico avariado, uma botija de gás vazia ou prateleiras sem nada. Problemas que noutra altura qualquer pareceriam ter uma magnitude gigantesca, mas no dia a seguir as coisas estariam melhores, o tempo ajudaria. O que eu sinto… só piora com o tempo. Vai acumulando tudo e mais alguma coisa e no fim já não é possível distinguir nada.


Até melhorar, vou sentindo falta de problemas sem relevância, com saudades de um tempo que sei ter existido mas de que já nem me lembro. É estúpido, não é? Ter saudades de algo que não nos lembramos. Não cabe na cabeça de ninguém. A não ser na minha, onde cabem coisas de mais e onde não tenho possibilidade de arrumar nada para me organizar. Resta-me respirar fundo e pensar que um dia tudo vai melhorar. No fim de contas continuo a pensar. E “pensar dói”.