Não te conheço

Não te conheço. Nunca te vi antes. Os teus traços não me dizem coisa nenhuma. Não sei qual é o tom da tua voz e não sei de que cor são os teus olhos. Não sei se róis as unhas, não sei qual é a tua comida favorita nem a tua cor de eleição. Nem sequer sei como te chamas e que idade tens. Nem sei onde vives, com quem vives e onde gostarias de viver. Não sei se amas alguém, se tens planos para o futuro ou se remóis o passado. Não sei absolutamente nada de ti. E, no entanto, ambos sabemos que essa é a maior mentira que conto a mim própria todos os dias.

Conheço-te melhor do que me conheço a mim. Talvez porque tenha passado maior parte do tempo que partilhávamos a absorver todos os pormenores que te diferenciavam das demais pessoas que passavam por nós. Fazia-o sem dares por isso, com uma discrição que nunca antes reconheci em mim. Mastigava o silêncio como se fosse a maior iguaria que alguma vez provara porque me permitia saber um pouco mais de ti. E não me importava quando falavas; era uma oportunidade de decorar todos os traços da tua voz.

Sei bem que tens os olhos verdes e um mundo inteiro dentro deles. Viajava para lá sempre que possível, sem aviso nem marcação. Também sei que não tens por hábito roer as unhas e que não torces o nariz a comida nenhuma. Sei que insistes em fazer do cinzento a cor predominante no teu guarda-fatos. O teu nome está sempre presente em todos os lugares. Sei que vives onde queres, com quem queres e que não tens planos para sair daí. Não visitas muitas vezes o teu passado mas falas constantemente acerca das coisas que queres para o dia seguinte. Conheço-te como nunca fui capaz de conhecer outra pessoa. E conheço-te porque quis saber tudo sobre ti.

Conto esta mentira todos os dias. Ou pelo menos, conto-a sempre que me perguntam algo sobre ti. Quando digo que não te conheço, recebo olhares tristes e acenos de cabeça pouco vigorosos. E eu mudo de assunto, à espera que a mentira se torne verdade mais não seja por repeti-la tantas vezes. Talvez um dia isso aconteça mas nem eu acredito muito nisso. A menos que mudes drasticamente, serás sempre a mesma pessoa que conheci e eu não quereria ter-te conhecido de outra forma. Contudo, acabo por ser eu a remoer o passado quando me lembro do único dia em que não te reconheci realmente. Aquele dia em que mudaste o tom da voz, em que soluçaste as palavras que eu mais odiei ouvir, em que mudaste os planos sem me explicares porquê.

Quando te vejo passar, olho noutra direcção. Baixo a cabeça e contorço as mãos. Fecho os olhos e tento lembrar-me de como respirar correctamente. Às vezes dás por mim e o nosso olhar cruza-se no meio de uma rua onde outrora cruzámos sonhos e histórias. Mas já não sei viajar nos teus olhos e tu sabes fingir perfeitamente que não me conheces. Invejo-te por isso, sem qualquer tipo de conotação negativa. De uma maneira ou de outra, invejamos muitas vezes aquilo que não somos capazes de ter ou fazer.

Os segundos transformados em minutos acabam por passar e continuas o teu caminho. Respiro novamente e pouso sobre o colo as mãos que agora tremem. Cerro as pálpebras e digo em voz baixa a mesma mentira: não te conheço, não sei nada sobre ti. Mas o cérebro trai-me e relembro as últimas palavras que me dirigiste. Disseste-me para fazer de conta que não te conhecia e por muito que tente, não consigo conceder-te esse desejo. Conheço-te tão bem como sempre te conheci e no fundo, começo a achar que nunca te conheci de todo. 

*ficcional